Pular para o conteúdo principal

Mulheres, de Charles Bukowski (adaptação de Mário Bortolotto, direção Fernanda D'Umbra) (7a vez)

Muito bem, assisti então pela 7a vez a peça do Grupo Cemitério. Com duas mudanças de elenco. Mas com tudo praticamente do mesmo jeito. O que dizer, agora?


Eu me convencia que queria ver novamente a peça para conferir as mudanças. Não era bem verdade.

Algo no jeito que o pessoal do Cemitério tem de encenar os universos próprios e alheios me encanta. É um certo realismo, sim, mas é também um espaço à loucura. Explico.

Os personagens de Hotel Lancaster, do Marião, são tudo menos "normais". Todos em busca de pico ou de grana ou de poder. A exacerbação vem de parte do Odusvaldo, feito pelo Napão, drogado em completa assintonia com o ambiente. Ou sintonia, quem sabe. Algo no Odusvaldo me fascina. Não consigo conceber mais o ser humano em sua normalidade. Talvez seja isso inclusive o que me afasta de encenações realistas com base em dilemas comuns - mesmo que muito importantes.

Na peça do Bukowski, a assintonia está com a Tammy, interpretada pela Samya Enes. A Tammy, como está no livro, é um ser limítrofe. Está no mundo, sim, mas não sabemos em que mundo. Tammy foge da normalidade como o óleo da água. Há sim algo de histriônico demais no personagem encenado, algo que a própria Samya reconhece. Mas tendo sido escolha da direção cabe avaliar o que fica. E fica algo fascinante, novamente. É certo que não mais aprecio atores que tentam ganhar a parada no grito. Mas na Tammy o grito está no lugar certo. É algo que não existe na realidade, mas que por isso mesmo torna-se ainda mais crível, vocês compreendem?

A mudança de elenco disse respeito aos personagens do Pablo e da Erika e Fernanda, também. Não importa muito o que achei a respeito. Importa, como o próprio Loureiro está dando uns toques, avaliar a construção em si do ator em cima do personagem. Sei apenas que a cena, das 7 vezes, em que mais me emocionei aconteceu nesta encenação - quando a Lydia se despede do Chinaski. Algo bateu, na hora, sei lá o quê.

Vão antes que acabe.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gargólios, de Gerald Thomas

Da primeira vez que assisti a Gargólios, do Gerald (Thomas), na estréia, achei que não havia entendido. Alguns problemas aconteceram durante o espetáculo (a jovem pendurada, sangrando, passou mal duas vezes, as legendas estavam fora de sincronia, etc.) e um clima estranho parecia haver tomado conta do elenco - ou pelo menos assim eu percebi. De resto, entrei mudo e saí calado. Mas eu já havia combinado assistir novamente o espetáculo, com a Franciny e a Lulu. Minha opinião era de que o Gerald, como de praxe, iria mexer no resultado. Por isso, a opinião ficaria para depois. À la Kant, suspendi meu juízo. Ontem assisti pela segunda vez ao espetáculo. E para minha surpresa muito pouco mudou. Então era isso mesmo. Lembro de que minha última imagem do palco foi ter visto o Gerald saindo orgulhoso. A Franciny disse meu nome a alguem da produção, pedindo para falar com o Gerald. Ele não iria atender, e não atendeu. Lembro-me agora de Terra em trânsito, a peça dele com a Fabi (Fabiana Guglielm...

29/7 (a partir de 28) - Teatro e artes

Ontem, ao ouvir o Gerald, quanto a como coloca a musica (depois), e depois ainda, ao ver uma musica passando pela partitura (e me deixando uma impressao de impossibilidade de traducao em algo mais), percebi que a arte finalmente havia voltado a assumir um lugar inextrincavel em mim. Finalmente percebi novamente que ela existia em mim para algo alem da minha vida, e percebi tambem que qualquer motivacao extemporanea (tipo celebridade, valor em si, razao) para ela era, alem de inutil, irrelevante. Percebi isso e na hora me libertei de coisas ao meu redor imensas, que me faziam sentir amargurado por um peso muito grande. Como se eu DEVESSE atribuir algo aa minha vida por me sentir pequeno demais para tudo o que investi nela. Isso fez com que eu tambem entendesse que, quando QUALQUER COISA for bem feita, ja EE arte em si, e por isso mesmo entendi o valor da edicao no cinema, da atuacao, da luz e tudo mais. Tudo adquiriu de repente um valor maior, para alem da vida inclusive.

Peças novas

Terminei uma peça sobre suicidio. Estou fazendo pelo menos oito novas, em simultaneo, sobre diversos temas. Estou me familiarizando com a nova musica mundial, especialmente na intercessao entre classica e eletronica. Logo devo comecar a compor com meus meios, bastante limitados mas corretos para minha situacao atual. Estou muito produtivo, o que acaba saindo nos intersticios das atividades costumeiras, para ganhar a vida.