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Um branco

Não desejo a ninguém que esqueça sua fala no meio ou começo de uma peça. Mas foi isso que aconteceu ontem comigo. Eu mal entrara na cena e de repente travei. Digo-lhes que a sensação é HORRÍVEL. Dá para sentir FISICAMENTE o tempo se fechando. Não, não me refiro a nuvens. Refiro-me que, a cada segundo, a cena torna-se mais opressiva, e nós, que estamos no redemoinho, não podemos recuar. Só existe andar para a frente. Toda cena é PARA A FRENTE. Não existe a possibilidade de recuo, de forward, de rewind, não existe mesmo. E TUDO ESTÁ EM NOSSAS MÃOS. A solução foi ir direto ao ponto em que minha partner, a ótima Majeca, pega o touro pela unha. Eu já havia feito isso em outro momento de esquecimento, e daquela vez a Helena Cerello foi quem pegou o touro. A desolação que a gente sente depois que a cena termina e somos obrigados a nos defrontar conosco é indescritível. Entendo claramente por que determinados atores ou atrizes, cobrados por seus diretores, que os formataram, ficam qua...

Mea culpa

Nos últimos dias, pisei na bola pelo menos duas vezes. Em uma delas, fui defrontado com a seguinte situação: eu não teria tido boa intenção ao publicar reflexões sobre o trabalho do grupo de um amigo. Em outra, teria sido indelicado criticando uma atriz amiga de forma mal-educada num texto sobre uma peça de que ela participara. Em ambos os casos pedi desculpas. Mas percebi que a ferida era mais funda. Descobri, consultando meus botões, que meu comportamento, há mais de 25 anos (tenho 47), tem se caracterizado por uma falta enorme de consideração para qualquer pessoa, qualquer uma mesmo. E percebi então que aquilo que uma grande amiga me revelara e que eu havia percebido sozinho ao lidar com amigas e amigos não era invenção. Havia algo de muito podre nesse meu comportamento. "Naveguei" em reflexões, tentando chegar no exato momento em que isso começou quando percebi que tudo fora fruto de um processo, de uma história de 25 anos para mais em luta com o mundo e comigo mesmo...

O Grande Hotel Budapeste (dir. Wes Anderson)

Que me lembre ou saiba, não havia ainda assistido filmes desse diretor, que pelo visto é bem cotado nos dias que correm. Na verdade, eu nem imaginava claramente a que iria me ver sujeito ao assistir um filme com dezenas de rostos conhecidos. Claro, sabia que era uma comédia. Para apostar nisso, basta ver o cartaz do filme. Não se conseguiria fazer realmente um drama com tamanha exposição. É uma trama rocambolesca. Que envolve um personagem esquivo que resolve contar ao colega a história do hotel em que estão. A trama é a própria história do hotel. Que envolve um dos Fiennes, como concierge do tal hotel, por volta dos anos 30 em algum lugar (fictício) da Europa. A história é contada sob o ponto de vista do Lobby boy, um imigrante que teve toda a família dizimada e que resolveu se dedicar a essa profissão. Os personagens, quase todos, são pitorescos. Parece que assistimos a uma história em quadrinhos (os enquadramentos estáticos reforçam a impressão), que se desenvolve agilmente e...

Roma (série) (novas impressões)

Não consegui assistir Roma, a primeira temporada, inteira. Mas reparei em uma coisa. Antes, uma digressão: não entendia por que cargas d'água tantos em tantos grupos são fascinados pelas séries de tv, em geral paga. Disseram meses atrás que elas tinham os melhores roteiros. Dizem outros que são de alta qualidade como um todo. Aqui comigo, acredito haver descoberto o porquê. Roma é uma série que enleva. Sentimo-nos levados pelos personagens, com atores que, em geral, apenas atuam como se deve. Outros atuam bem menos do que poderiam. Mas isso acaba sendo irrelevante, no fim das contas. Porque a série é bem editada. Ela enleva. Faz o tempo passar com leveza. Diria que no cinema a intenção de agradar está mais no produto em si, na trama que só irá passar uma vez. Nas séries, somos defrontados face a situações novas que fazem os personagens em questão enfrentarem novos desafios. E com os desdobramentos tudo acaba sempre ficando mais complicado. Pouco importa. Somos enlevados. ...

A emoção no ator - Comentários do grande Cesar Ribeiro

Concordo com o que você escreveu, e acho que tem muito a ver com o que coloquei da Mnouchkine. Sobre o final do texto, basicamente arte é signo, código, e um ator emocionado perde a capacidade de precisão e, muitas vezes, até da consciência do signo. Há todo um processo de ensaios para se chegar ao signo ideal, então quando o ator está em cena ele já passou pelo processo que o espectador está passando naquele momento. Não há como nem por que falsear isso impondo emoções do ator, que sempre serão, no fundo, "falsas", porque ator e personagem são coisas diferentes, e o que os aproxima é a consciência das semelhanças, sejam intelectuais ou emocionais ou outras quaisquer. Cesar Ribeiro Por semelhanças quero dizer a consciência da situação vivida pelo personagem, pela peça, pelo contexto do autor, da época etc. Ou seja, a a transposição disso para certo nível de conhecimento no ator, especialmente racional. Cesar Ribeiro Sobre colocar ou não colo...

Ensaiando Godot - discussão sobre totalidade

Devo ter assistido uns 8 ou quem sabe 10 ensaios de Esperando Godot, pela Garagem 21, do Cesar Ribeiro. Nesses ensaios, comentei bastante coisas que no fundo demandavam discussões sobre a linguagem, que para o Cesar não são necessárias ou não cabem nos ensaios, e outras, nos últimos ensaios, sobre a montagem em si. Outros e outras comentaram, também. Mas em um dos ensaios, já entendendo as posições do Cesar (acho), eu fiquei encucado e não soube me expressar, pois as reservas não diziam respeito à linguagem, mas a uma impressão que ainda se mantém. Ressalvo: hoje não fui aos ensaios. Amanhã devo ir. Vou convidar uma amiga, também, que só recentemente faz parte de meu grupo. A reserva dizia respeito à totalidade. Agora há pouco, quando ia entrar na web, queria ter imprimido uma geral de todo o material que tenho no meu blog comentariossobreteatro, mas não deu. A questão era verificar se realmente há sempre ou quase sempre nos espetáculos que eu vejo alguma questão referida à TOTA...

A emoção no ator

É pequena minha experiência como ator, eu sei. 4 peças em um ano, sendo uma em duas temporadas no meio da semana (um dia). Pode parecer pouco - e é. Mas aprendo rápido e toda apresentação é todo um aprendizado que serve para entender as atuações dos outros e para tentar aprofundar as reflexões sobre a emoção no ator. Quando dirigi minha primeira peça - numa escola, com três atores - eu não sabia de praticamente nada. Mas eu insistia, por instinto, com o ator principal que ele não deveria se emocionar, mas ao contrário conseguir emocionar os espectadores. Ele o conseguiu e foi bem bonito. Mas meu estilo de direção era tosco, para falar o mínimo. Passaram-se vários anos até que alguém me desse um papel, logo a mim que nunca tinha atuado. Foi um aprendizado muito esclarecedor. Seria inútil repassar tudo aquilo por que passei, por isso acreditem: aconteceu muita coisa e muita coisa ficou. Mas também montei um grupo e tive de ler muito e refletir bastante a respeito de onde eu quero me...