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Da tradutora Dirce

Vi que o título do livro te pareceu enigmático, mas é o subtítulo de uma das peças de Stein, além disso faz uma referência à pintura, às artes plásticas.  Stein tinha grande contato com os pintores de vanguarda, seus contemporâneos. Ela conhecia inúmeros deles, expunha seus trabalhos e opinava a respeito de suas obras. Em Lectures in America, Gertrude Stein teria afirmado o seguinte: “como eu disse todo mundo tem que gostar de alguma coisa, algumas pessoas gostam de comer outras gostam de beber, algumas gostam de fazer dinheiro outras gostam de gastar dinheiro, algumas gostam de teatro... e eu, pessoalmente, gosto bastante de todas essas coisas mas elas não prendem a minha atenção por muito tempo. A única coisa, bem divertida, que eu nunca fico cansada de fazer é olhar um quadro.”  Além disso, a estética de Paul Cézanne (1839-1906) teria influenciado fortemente a escrita de Stein: Stein gostava de peças estáticas, para que tivesse tempo de refletir sobre ela. Cézanne como ...

O que você está olhando - Teatro (1913-1920), de Gertrude Stein (org. e trad. Dirce Waltrick do Amarante e Luci Collin) (Iluminuras)

Descobri o livro da Gertrude Stein primeiro na livraria e depois na web - em que pode ser adquirido de graça. Mas, como quase todo desavisado, acabei sendo defrontado face um esforço inglório de tradução para tentar entender aquilo que, à primeira vista, poderia nem ter entendimento. Daí que parei. Sabia que a G. Stein havia escrito peças no mínimo incomuns, no começo do século XX, e que deveria ser um esforço hercúleo esse de tentar traduzi-las e posteriormente entendê-las. Foi quando descobri que a Iluminuras havia lançado uma versão do livro com um título no mínimo desconcertante. O livro original intitula-se Geography and plays, ou seja, Geografia e peças, enquanto sua tradução chama-se O que você está olhando. Não tenho realmente a menor ideia do que fez as organizadoras e tradutoras optarem por tal denominação - cabe isso algo a ser refletido e questionado. Gertrude Stein, para quem não sabe, foi uma escritora modernista norte-americana que desenvolveu um trabalho sui gene...

Duas leituras de G. Stein

Nossa primeira reunião do Grupo As Garotas do Contrera e Cia. teve, além de mim, a presença de duas atrizes. Num grupo com 17 pessoas, foi bem pouco. Mas, COMO SEMPRE, a qualidade faz a diferença. Depois das explicações de praxe, e sem o alongamento combinado (por quem furou), fizemos a leitura de dois textos da Gertrude Stein, Vozes de Mulheres e Toda Tarde, de 1916, ambos criados com o intuito de virarem peças. Lemos primeiro, nós três, Vozes de Mulheres. Quem conhece algo da autora sabe do hermetismo de seus textos e do sintoma de aparente non-sense que é possível retirar deles, à primeira vista. Vozes de Mulheres é um texto realmente difícil. Cheguei com o texto dividido em 5 personagens, sendo que a Rê cuidou de dois e eu também, a Ma cuidando do B. Lemos umas 5 ou 6 vezes, não me lembro bem. Tentamos brincar com eles, atribuir novas acepções a falas aparentemente fáceis, outras acepções a falas mais difíceis, dividimos - como no original - o texto em cenas e atos, e fizemo...

Roma (série)

Vi a série da BBC e associados pela primeira vez há alguns anos. De lá para cá, meu interesse pela trama romana reviveu e assumiu contornos de especialidade. Tanto que agora me motivo a ler os Anais de Tácito e outras obras fundamentais para entender esse momento da história em que (quase) tudo estava sob um único imperador. Façanha que, venhamos e convenhamos, nunca mais se repetiu, embora tenham existido idiotas suficientemente teimosos para matar dezenas de milhões nessa vã tentativa. Mas agora reparo na direção e em outros aspectos que antes para mim passavam batido, em parte porque queria apenas usufruir do tempo perdido, em parte porque não me interessava nesse algo mais - ao menos nesse tipo de produto - que poderia advir de se preocupar com os detalhes em empreendimentos desse porte. Sei lá quanto foi gasto na série, mas não deve ter sido pouco. Já os detalhes da reconstituição é uma questão desde já para especialistas. Assistindo muitos bons filmes ultimamente, percebo qu...

Manhattan (dir. Woody Allen)

Passei boa parte de minha adolescência em meio a cinemas (alguns dos quais não existem mais) e cineclubes (idem), nos quais o nova-iorquino dos anos 30 divulgava os primeiros de seus hoje incontáveis filmes que traduzem como poucos o universo norte-americano e de classe média universal. Não à toa muitos admiram o jeito pelo qual o sujeito traduz sua verve cômica: a explicação tem, claro, a ver com sua expertise cômica e aguda percepção do cinismo middle-age, mas também tem a ver com um pacote bem vendido para um público que só fez crescer desde que ele começou. Manhattan, eu me lembro de haver visto há muitos, muitos anos, muitos mesmo antes de experimentar por São Paulo o mesmo amor que ele nutria e ainda nutre (embora em menor medida, como o livro do Lax faz questão de ressaltar) pela grande Maçã. Filmado propositadamente em preto e branco, o filme transcorre em meio a paixões desmedidas e traições variadas por personagens de uma classe média aparentemente entediada. O que mai...

Movimento, gesto, motion e ação (continuação)

Mas nada parece realmente definitivo nessa reflexão sobre o que seria realmente significativo, resultante de intenção (até que ponto esta é realmente fundamental fica a critério da psicologia de cada um). Pois em seguida Louppe opõe as extremidades (mãos, pés) às zonas proximais, que seriam as mais relevantes no trabalho de dança, olhado em seus traços maiores. Quais serão mais expressivas, relativas à questão do gesto: as extremidades, realmente, ou o corpo como um todo, incluindo as zonas proximais? Reflito que no meu atual momento eu prefiro focar-me no rosto, e relembro minha insatisfação ao reparar no rosto dos dançarinos nesse tão incensado vídeo recente sobre Pina. Pois minha pequena experiência com teatro e minha profunda inexperiência com trabalhos de corpo fazem com que eu me retraia sempre que o corpo como um todo é olhado com respeito a algo a dizer, enquanto tenda a me focar realmente nos trejeitos sempre que me sinto à vontade para procurar uma verdade. Os movimentos...

Teatro, de David Mamet, e umas "leituras"

De uns tempos para cá, assoberbado de leituras sobre e de teatro, assim como de reflexões sobre teatro que vejo aqui e acolá, venho sentindo um certo assombro com autores que se propõem, FINALMENTE, dizer A QUE REALMENTE vem o teatro. Assombro porque quanto mais o tempo passa mais percebo que esses autores não me causam grande impressão pelo simples fato de que sinto cada vez mais que PRECISO ver o teatro do MEU modo. A liberdade está aqui para isso, não é mesmo? Claro, sempre temos o que aprender, mas com o tempo nos acostumamos, não é mesmo, a perceber que certas coisas realmente nos causam impressão, ao passo que outras, venhamos e convenhamos, não nos acrescentam em muita coisa ao que já sabemos ou vemos da vida. Digo isso de forma, digamos, categórica: o que me acrescenta, acrescenta; o que não acrescenta, não acrescenta. E digo: em minha concepção de vida. Pois, quanto mais passa o tempo, mais reparo que essas discussões sobre Teatro me causam certo engulho. Preciso salienta...