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Granadas de efeito retardado no cuspe de um mamulengo, por Rodrigo Contrera

Minha trajetória de 8 anos no teatro, como espectador, resenhador, dramaturgo e ator nunca esteve tão tumultuada mas ao mesmo tempo tão enriquecida, e minha passagem pela oficina da Confraria da Paixão foi, nesse processo, absolutamente determinante. Para que eu consiga vislumbrar, para mim, o que acontece, e, para os outros, aquilo sobre o que reflito, é necessário realizar um sobrevôo na paisagem complexa e rarefeita do teatro visto e experimentado, com paixão e profundidade, nos últimos anos. Provavelmente ao contrário da imensa maioria dos interessados pela arte teatral, não comecei no ramo pelos princípios básicos, mas guiado à distância pela mão de um dos três mais importantes encenadores do país das últimas décadas, Gerald Thomas. Seria um despropósito tentar explicar como isso se deu, uma história belíssima. Só digo que pude acompanhar seu processo por 4 meses, como fantasma, e ser jogado sem rede de proteção no palco – lugar onde decidi ficar. A vanguarda possível havia fic...

Amigos e Teatro

Assim como Cioran, eu escrevo quando algo me incomoda. Além disso, trabalho em meu grupo de teatro com assuntos que incomodam os atores numa dimensão estritamente pessoal. Descobri esse “método” em parceria com minhas atrizes, que aprendi a atiçar de uma forma ao mesmo tempo contundente mas sempre suave e respeitosa. Não menciono os meus atores homens porque com eles algo parece não funcionar. Talvez o fato de ambos seremos homens, eles e eu, estabeleça uma barreira que eles não se dispõem a ultrapassar com medo de aparentarem fraqueza. Mas voltando à questão da escrita. Uma questão que recentemente tem me incomodado é a oposição entre certos tipos de pessoas. Há um tipo delas que têm predisposição a uma integridade que não precisam abandonar e que as leva a aceitarem cada vez mais pessoas em seu universo e as ajudarem a sobressair, congratulando-se com isso. Essas pessoas são normalmente tidas pelos amigos como excepcionais, por darem oportunidades aos amigos sem cobrarem absolut...

Badiou's On Beckett

O que é interesssante no livro do badiou sobre beckett é que já pelo começo ele se propõe a discorrer, de forma hipotética, sobre algumas obviedades que os outros - especialmente os brasileiros - preferem não encarar. Badiou refere-se por exemplo ao caráter do Beckett em inglês e em francês. Em que medida eles são diferentes? Isso já no prefácio do autor. Realmente o Beckett em um não é o mesmo de em outro. Em inglês ele parece menos filosófico, mais chapado nas verdades que ele diz, verdades que aparentam certa ironia subjacente. Em francês, ele como que cai na vertente do filosofar francês, cedendo a uma singeleza de falar que parece nos conduzir aos dilemas do ser. Outro aspecto interessante das leituras de Badiou é que ele afirma coisas difíceis de afirmar mas que ajudam sobremaneira a compreensão - de Beckett e mesmo dele. Seria fácil por exemplo dizer que os opostos de Beckett levam necessariamente à dialética hegeliana. Muito falso, segundo Badiou. Falso a ponto de denotar...

Umas linhas sobre reflexões necessárias

O mundo se tornou complexo demais e impossível de parar. O que sabemos hoje amanhã (ou hoje mesmo) é colocado em questão. Ninguém pode se dar mais ao luxo de escrever asneiras em qualquer lugar. Recebe respostas imediatas e muitas vezes precisa se retratar. Os campos de estudo parecem viver uma confusão enorme. O que para muitos é definitivo para outros já foi há muito ultrapassado. Para outros ainda, muito do que existe na prática ainda não existe em teoria. Estamos sempre atrasados. Cidades pequenas surpreendem-nos com espetáculos inovadores sem parecerem aproveitar qualquer tradição. Que tradições são agora válidas?, pensamos. Muitos critérios de qualidade escondem apenas critérios de classe. Outros escondem ignorâncias incômodas em relação ao OUTRO. Nesse momento em que tudo parece se esfumar, é preciso calma. O que queremos ao escrever? O que queremos ao fazer? O que queremos ao refletir?  Em dança, como em outros campos, tudo parece explodir. Novidades parecem sur...

Laban

Tenho certa relutância em embarcar nos ensinamentos de um Laban, pois percebo que em mim terei de lidar com insuficiências, incapacidades, e não sei bem se ele trata desse tipo de assunto. Parece na verdade mal haver bibliografia e indicações de âmbito comum quanto a como lidar com insuficiências não querendo restringir-se a elas.  Mas enrolo.  Fato é que as linhas de Louppe mal parecem acrescentar, e que preciso embarcar em caminho próprio se quiser ganhar algo nesse sentido. Realmente não sei se estou viajando com os Corpos Nômades. Não devo ter muita chance mesmo. Mas não posso por outro lado desconsiderar que caso passe precise desenvolver saídas em prazos bem exíguos.

valores?

as últimas semanas tenho passado indo na oficina da confraria da paixão, do luiz. interessante este tempo tem sido no sentido de me mostrar que não existe nada acima ou abaixo em questão de teatro. existem coisas melhores e piores, claro. mas nada, em termos de julgamento de valor - na integridade do teatro -, pode, de antemão ou a posteriori, ser colocado entre os espetáculos. importa o espetáculo. importa que haja integridade no que é feito. importa que a gratuidade, se houver, seja entendida em si mesma, e não em comparação com algo que esteja na mente de quem vê. não sei se me faço entender. o gosto não é o critério. e nem a razão. só mesmo o espetáculo. só ele para dizer.