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retorno

ficamos uma semana apenas sem apresentar dias e noites, e parece que passou um século. deve haver alguma razão psicológica para isso.  fato é que estava com saudades. voltou o pedro, meu personagem histriônico, voltaram todos meus colegas atrizes e atores, cada um investindo tudo na caracterização rasgante que o marião  Mário Bortolotto  deu, com eles, a tudo que estava lá atrás no texto do grande Lucas Mayor .  tenho aprendido muito com todos, sem exceção. e com o batata, o sugar, toda essa galera que levantou esse edifício que é quase palpável ao espectador. muitos saem com um gosto amargo ou doce consigo, isso eu sempre reparo. poucos ficam a meio termo. não é esse negócio de amar ou odiar. é esse negócio de afetar. como bom admirador de cassavettes, o lucas deve estar bem feliz com tudo. o marião adora.  estaremos hoje e amanhã lá no teatro cemitério novamente, frei caneca, 384, 21 h. 20 pilas. sei que sou suspeito, mas realmente vale a pena.

novatos

todo ano gente nova entra na roda. os olhos brilham nessas pessoas. elas acreditam, ainda. e por isso se dedicam. com o tempo, os olhares tornam-se esmaecidos e os olhos perdem o viço. é quando essa gente começa a questionar. e depois, levados alguns tombos, a deixar de acreditar. é interessante ver isso na vida real. há quem nutra ilusões e é chamado de idealista. há aqueles que permanecem e são chamados de teimosos. mas, vem cá, para quem não consegue viver sem, continuar, o que é? nada, simplesmente passos a mais. raulzito dizia tente outra vez.

Estatísticas - Setembro

agora

agora que atuei numa peça convidado pelo marião e aceito pelo pessoal da la plongée e que convivo frequentemente com todo o pessoal do cemitério de automóveis e outros muitos amigos do teatro, eu poderia me sentir mais capacitado para escrever sobre teatro. mas não é nada disso, ao contrário. sinto-me cada vez mais confuso sobre o que vejo e sobre aonde quero chegar com isso. isso não significa necessariamente que me sinta constrangido por agora todo mundo ser amigo ou quase isso. simplesmente meus critérios são mais complexos, agora. vejo de vários lados e por isso vejo mais e mais claro, e minha arrogância de outrora, essa que me fazia tentar alturas a que jamais sozinho poderia sequer pretender, agora está por debaixo de tudo, onde deve ficar. vamos ver se escrevo algo legal, agora.

o mundo invertido

invade-me a trilha final de nossa peça. caio numa melancolia profunda. mas, contrária a ela, uma forte tendência a sair de mim. a gabi (não a da peça) desvelou-me poesias de outrora. hoje ela passa no teatro. irá ver a peça. preciso agradecer-lhe. há tempo que não me emocionava com uma poesia, de grande de outrora.  ontem, outra amiga - que conheci pessoalmente na ocasião - mostrou-me quão extensa e intensa pode ser a subjetividade própria e alheia. a timidez é passo segundo. como explicar que em mim o mundo parece caminhar invertido? a tarde avança enquanto reparo em mais e mais caminhos no personagem que eterniza a vida na arte.  dias e noites, de  Lucas Mayor , direção de  Mário Bortolotto , na frei caneca, 384, 21h, 20 pilas.

antes, na coxia

antes de entrar no palco, bate um medo. o medo de esquecer. mais ainda, o medo de, esquecendo, parar no meio. do jeito que eu venho aprendendo, eu, que também escrevo e dirijo minhas bagaças, só posso mesmo agradecer. e é o que, calado, acabo fazendo pouco antes.  mas isso não evita que poucos segundos antes do palco, quando a luz começa a se fazer, quando o momento torna-se meu, o peito bata (um  pouco) mais alto. um jeito de tentar superar algo disso é concentrar-se antes. a coxia é um lugar sensível. diria que uma hora antes do palco não é legal que as energias contaminem com nada negativo. por isso, a introspecção é algo salutar nesses casos. tentar a voz, os movimentos, passar o texto, tudo com calma e singeleza. nada que é brusco pode dar nada bom nesses momentos. nada de gritos, principalmente. a coxia é um local sempre acanhado pelo tanto de energia investida nisso que irá acontecer. hoje, quinta semana, dias e noites, de  Lucas Mayor , direção mahavilha do...

plebiscito e plateia meio fria

acho que foi em 87. minto, foi mesmo em 88. rolou uma viagem por caravana para o chile. eu era chileno à época.  tava sem grana para bancá-la sozinho, e eu tinha uma dúvida cruel. embarquei nela. não sabíamos, ninguém sabia, mas a caravana era bancada pelo partido comunista chileno. ou seja, não ia passar. era ditadura. desci em mendoza. eu iria ser preso se não fosse diferente. os outros, apenas expulsos. como aconteceu. mas eu passei antes, de ônibus. e assisti ao primeiro de maio. era ano de plebiscito. meus documentos não estavam em ordem, então não votei. hoje, sei lá por quê, acabei me lembrando. quiçá pelos 40 anos da implantação da ditadura. não sei. sei apenas que ontem ao ver amigas na plateia gostei muito. depois conversamos à saída. apresentei-lhes o pessoal da companhia. se o pessoal soubesse o quão tímido eu sou. algo inabordável. a plateia tava meio fria, acho. mas tudo rolou como de costume. começo a vislumbrar algo fora do costume. enquanto isso, a gente toca a vid...